domingo, 15 de agosto de 2010

Uma Madrugada Qualquer

Por que temos essa mania de adiar as coisas, achando que tudo pode ser deixado para depois, para daqui a pouco... Essas atitudes dão a vida um cunho de infinidade, de intérmino contínuo. O mais intrigante é que nos colocamos em permanente estado de contestação quanto à longevidade dos nossos dias, reclamam o quanto a vida é curta. Poxa, se nossos dias são assim tão fugazes _ e realmente são_, se um dia com 24 horas é curto demais para fazermos tudo, que razão há para retardarmos decisões e atitudes? Medo, acomodação, falta de atitude... Se todos repetem a máxima de vivermos cada dia como se fosse o último, o fim de nossas vidas então é indubitavelmente inacabado. Qual o motivo de terminarmos com reticências ou interrogação uma efêmera existência, quando a poderiamos pontuar com exclamações ou mesmo o tão polêmico ponto final. Assim sendo, comprovando a continuidade e uma possível tomada de comportamento, assasino a língua portuguesa e pontuo o fim deste com uma vírgula, ponto e vírgula não pois é mais demorado, mas uma vírgula, uma pequena pausa, seguidada da continuidade que se deve dar,

O Menino Que Carregava Água Na Peneira

(Manoel de Barros)



Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.


O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Onde você gostaria de estar?

Há dois dias me fizeram uma pergunta, "onde você gostaria de estar agora?". Antes de se indagada, por diversas vezes anteriormente divagava me imaginando em lugares diferentes, vivenciando várias situações. Me colocava no papel de vários personagens e fantasiava exaustivamente. O que me intriga é que não tive resposta. Não consegui pensar rápido (nem demorado) em um lugar em que eu realmente gostaria de estar, à guisa de explicação, respondi na França. Hoje, acho que não importa onde você esteja, mas com quem. Minha dificuldade de responder foi justamente por isso. Estar em algum lugar, o mais perfeito, o melhor, mas quem eu gostaria que estivesse comigo? Pois por mais linda que seja Veneza, por mais erudito que seja o Louvre, por mais interessante que seja Machu Picchu, por mais paradisíaco que seja Fernando de Noronha, por mais divertido que seja Las Vegas, nada disso é realmente incrível sem alguém ao seu lado. Então, qual o lugar que você gostaria de estar agora, se pudesse escolher? Hoje, não tenho resposta... 
Como diz o ditado, "na vida há os que choram e os que vendem lenços."

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Quimera

"Não me envergonho de mudar de opinião porque não me envergonho de ter idéias e raciocinar." Não sei quem escreveu isso, mas no momento é uma sentença que me faz pensar. Mudar de opinião, ou mudar sua essência. Até onde toleramos as mudanças alheias, a até onde suportam as nossas? O ser humano, segundo o Darwinismo, é uma espécie evoluída do macaco. Verdade que conheço gente que adora umas macaquices, outros que mais seriam primos das coitadas preguiças, enfim, mas se fosse para eu escolher um bicho para comparar o homem, sem dúvida escolheria o camaleão. Apesar da sua lentidão, conta com uma ferramenta de sobrevivência incrível, a adaptação, aliada a mutação ao ambiente em que se encontrar. Assim como os camaleões somos lentos, porém lentos nas mudanças. Ninguém muda de uma hora pra outra, isso não existe. Suas atitudes vão influenciar na sua personalidade daqui meses, ou até mesmo anos. E a pergunta é, quando perdemos nossa essência? Me refiro aquele ideal que bravamente defendíamos, fosse socialista, ambientalista, hipponga ou mesmo hard core... Quando é que perdemos nossos sonhos e nossas lutas? Conheci tanta gente fascinante, inspiradora, que hoje não passam de mercenários, ou mais um daqueles que fazem de tudo para ser aceito em determinado grupo social. Isso me lembrou de uma música de Belchior, "Como nossos pais", em que em um trecho diz o seguinte: "hoje eu sei que quem me deu a idéia, de uma nova consciência e juventude, está em casa, guardado por Deus, contando o vil metal...". Não quero com esse post parecer uma radicalista. Muito pelo contrário, sou a favor das mudanças. Eu mesma sou uma camaleoa. Todavia, sou contra quem perde o brilho do olhar de outrora, quem desiste da causa nobre defendida, quem se adequa as regras sociais por mera conveniência de vontade de fazer parte de algum grupo de gente fútil. Quando olho pra trás, vejo muito da minha velha essência perdida no tempo. Tanta gente boa que ficou. Gostaria de mostrar pra alguns quem eu realmente sou, mas justamente nessa ânsia de provar minha identidade, piso nos cadarços e dou de cara no chão, servindo de piada para quem me rodeia. Muita gente acha que me conhece, pouca gente tenta realmente me conhecer e quase ninguém sabe como eu sou. Na verdade, nem eu mesma sei... Quando é que eu me permiti ir a uma festa na qual eu não gostaria de realmente estar? Quando foi que deixei de lado as pesoas que realmente me importam? Incógnitas. Bom, isso aqui está ficando mais longo do que eu pensava, e qualquer professor de língua Portuguesa me esganaria porque não tem introdução, desenvolvimento e conclusão, além de eu ter começado em um assunto ido parar em outro totalmente diferente. A verdade é que eu só tentei transcrever um décimo do que borbulha no meu cérebro. E ele é assim, hermético, confuso, e muito, muito doido! Hoje por exemplo está bem pior, chama-se TPM, e a minha terapia é aqui, escrever é o meu "atroveram". Agora vou finalizar mesmo, se não escrevo até 08 horas da manhã de terça-feira sem parar. Os assuntos vão borbulhando e meus dedos não param. Pronto. Alice sonha em sonhar...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

OAB: OBA!

Não sei por que demorei tanto tempo para resolver finalmente registrar um dos momentos mais marcantes e melhores da minha vida: a aprovação no exame da OAB. A felicidade foi e é indescritível. Até mesmo pelo motivo de quase ninguém, nem eu mesma, acreditar em mim. Nunca imaginei que fosse realmente passar, afinal a fama dessa prova é aterrorizante para todos os estudantes de Direito. Tudo começou quando uma grande amiga me ligou e me convenceu a me inscrever também. Até aí tudo bem, iria fazer por fazer, não estava estudando, e ainda estava com muito "stress pós-monografia" para me afundar em livros. Mas não tem jeito. O medo do fracasso é terrível, e é o meu maior fantasma. Minha família, conhecedora do nível de dificuldade da avaliação, me consolou, animando-me. Mas nada foi tão crucial quanto o que falaram para minha amiga e ela me contou: "Você passou cinco anos estudando Direito, agora vai fazer uma prova que só cai Direito, você tem que passar". Verdade. Foi bem duro. Todavia foi a maior sinceridade já dita. Coloquei aquilo na minha cabeça e fui fazer a prova, totalmente (des)confiante. Houveram algumas matérias que não estudei. Minha sorte é que a parte de Processo estava bem fresca na minha cabeça. Entrei naquela sala lotada. Pessoas de todos os tipos, de surfistas a patricinhas, e eu não podia deixar de fazer minhas apostas em quem eu achava que conseguiria. Ao meu lado uma senhora que fazia a prova pela quarta vez, contava sua experiência aos demais, que também já haviam feito o teste. A tensão só aumentou. Dor de barriga. Taquicardia. Suor frio. Tremedeira. Ansiedade descontrolada. Que prova difícil! Haviam coisas que eu tinha certeza que nunca havia visto na faculdade. Só Jesus na causa! Saí da sala, quase nos minutos finais. Duas amigas já estavam no portão. Eu estava amarela, exangue, minha respiração estava presa, minhas pernas tremulas. Uma delas concordou comigo quanto a dificuldade da prova. A outra surpreendeu-se conosco, menosprezando o exame. Eu já sabia o resultado, no máximo doze. Meu pessimismo, uma constante, havia achado mais uma brecha pra prevalecer. Resultado da Cespe, passei! No prego, mas estava dentro! Um alívio e felicidade instântaneos percorreram meu corpo. Gritei como louca. Mas resolvi não alardear o feito. Afinal, ainda tinha uma outra fase, essa discursiva, que me habilitaria ou não para a Advocacia. Dessa vez estudei, pois não poderia correr o risco de morrer na praia. Ao ir fazer esse segundo teste estava mais tranquila. Menos pessoas na sala. Não revi nenhum dos que eu havia prestado atenção. Eu também devia ser uma das que passou despercebidas. Que prova! Estava cansativa, e não muito fácil, mas ao sair e encontrar com minha amiga nossas respostas foram quase que 100% iguais. Ao olhar na internet a pré-correção feita por um professor pulei de alegria. Pronto passei! Uhuuu! É isso aí! É isso aí mesmo, alegria de pobre dura pouco. A prova foi anulada. Teria que fazer um novo teste. Passar por aquela situação martirizante novamente. Então lá fui para realizar, agora a "terceira fase" da OAB, eu não havia pegado pra estudar com afinco, afinal já tinha estudado uma vez. Eu sou mesmo uma anta! Quando peguei a "terceira" prova fiquei com medo. Achei mais prolixa. Algumas coisas simples, banais. Tão incrivelmente bobas que eu nunca imaginei que fossem cair, e por isso nunca pensei em dar sequer uma olhada. Escolhi a matéria de Penal/Processo Penal, dessa vez a peça era uma Queixa-Crime. Putz! Uma Queixa-Crime? Só podia ser brincadeira comigo! Que insanidade. Pra que dar uma peça simples dessas? Pra me danar com certeza! Mas graças a Deus um dia fui estagiária da Promotoria e lembrei logo: a Queixa é parecida com a Denúncia. Pronto. Tirando a narração dos crimes, que fiz muito sucintamente, o que em uma Queixa deve-se fazer mais detalhada e minuciosamente, fui muito bem... Entretanto ainda haviam as cinco perguntas e estas estavam de matar. Nem olhei os comentários dos professores na internet. Resolvi esperar o resultado, que com certeza seria péssimo. No grande dia, o nervosismo tomou conta de mim. A tragédia sempre deve ser retardada ao máximo, por isso resolvi não olhar. A noite a pressão cresceu. Senti vontade de fugir, sumir. E foi o que fiz, saí andando, minha tia foi comigo. De repente uma ligação pra ela. Queriam falar comigo. Do outro lado da linha uma voz conhecida: "Amiga! PARABÉNS! Você passou na prova da Ordem!". Meu Deus, não podia acreditar! Desabei em prantos, caí no chão rolando. Era felicidade demais. Chorei, chorei e chorei mais um pouco. Foi uma semana para acreditar na doce realidade. Ficava imaginando a qualquer momento alguém me dizer que havia tido um engano e uma nova lista de aprovados fora emitida, e nesta meu nome não constava. Não contava para os outros, com medo de que me achassem pretenciosa. Na verdade até hoje choco-me e emociono-me. Depois de tantas humilhações, sufocos, tristezas e angústias, Alice pode sonhar novamente...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Mundo Vai Acabar Em 2012

Quando você acha que já viu de tudo na TV, sempre aparece algo surpreendentemente ridículo, bizarro ou tosco. Chegando do curso, resolvi ligar a televisão e dar uma zapeada pelos canais. Até que parei nela, a Diva do esdrúxulo, a Rainha da apelação, a Mestra dos programas de baixaria, a quase professora de lingua portuguesa: Luciana Gimenez. Meu Deus! Uma vidente dizia que o mundo acabaria em 2012. Não quis nem saber qual o psicotrópico que ela havia usado para chegar a essa conclusão e mudei de canal. Assisti uma outra porcaria qualquer, e voltei para o canal anterior para ver se o jornal já havia começado. Infelizmente ainda não. A situação era a mesma de sempre deste progrma, bate-boca e mais baixaria, e agora a notícia do fim dos tempos havia sido complementada. O mundo poderia ser salvo do fatídico fim, e a salvação eram crãnios de cristal. Aquilo foi ainda pior. Desliguei a TV. Crânios de cristal... Como tem gente que inventa qualquer coisa para se aparecer... Por essas e outras, Alice não sonha mais...

terça-feira, 25 de maio de 2010

O Conto da Fita Vermelha

Lembro-me de uma vizinha que eu tive. Tinha os cabelos enormes, negros, emaranhavam-se sobre o seu rosto e isso a tornava estremamente misteriosa ao olhar os demais por entre a longa franja que cobria seu rosto. Adorava brincar na rua, traquinagens que hoje em dia as crianças houvem falar como lendas de um passado longíquo. Jogavamos pião, bola, amarelinha, bandeirola, pedras uns nos outros (falando soa pesado, mas era divertido e ninguém se machucava), desligávamos relógios, tocávamos campainha, acho melhor parar por aqui.
Um dia aquela menina ganhou um presente que a deixou radiante. Seu sorriso era tão largo que nem mesmo so longos e emaranhados cabelos conseguiam escondê-lo. Seu padastro havia lhe dado uma gatinha, toda branquinha, era muito linda! Parecia um algodãozinho. O nome: Xuxa. Devo concordar que não é um nome bem original, mas encaixava tão bem. Logo sua dona arranjou uma fita vermelha de cetim para amarrar em seu pescoço. A fita era de um escarlate extremamente encarnado, ainda mais vivo quando envolto naquele pescocinho branco. Logo veio a surpresa. A linda gata, na verdade era um gato. Sua dona ficou desolada. Um macho, com aquele nome feminino não pegava bem. Até tentou outros nomes, mas o bichano não atendia a nenhum... Sua mãe logo a consolou, disse que havia um exímio nadador, famoso inclusive, que tinha o apelido de Xuxa, o que tornava, portanto, o nome unissex. Ufa! Que alívio! O problema agora era a fita. Resolveu então que não era mais um laço, e sim uma gravata borboleta. Uma linda gravata borboleta vermelha em um elegantíssimo gato branco. Perfeitos! Os dois se divertiam muito. Há quem diga que gatos são chatos, quem bons mesmo são os cães. Quem diz isso é porque não teve a oportunidade de vê-los. Ele era seu companheiro. Ela não ia nem mesmo a padaria sem o felino. Banhava-o quase todos os dias, e para que se secasse rápido o colocava atrás da geladeira. Ele então, tremendo, deitava-se entre a grade e a parede para se aquecer. Acordava-a todas as manhãs e brincavam sempre. Xuxa era querido por quase todos. Havia um garoto que uma vez cortara seus bigodes. Tramamos planos mirabolantes de vingança. Um dia Xuxa desapareceu. Como brisa leve, o gato havia ido ninguém sabia para onde. A menina não podia acreditar. Ele não a abandonaria. Ela dava de tudo para ele, melhores rações, perfumes, era um gato feliz! Foram várias semanas de intensa busca e desespero. Nesses dias as manhãs na escola, antes tão divertidas, eram longas e massantes, ficávamos ansiosas para procurar por Xuxa. As tardes eram curtas e angustiantes. Rodamos por todos os cantos. O gato tinha desaparecido. Muita tristeza, choro, e finalmente o conformismo. Ele havia achado outar casa. Treze anos após o ocorrido soubemos a verdade. Andante, como todos os gatos, ele havia se enroscado em uma cerca de arame farpado que na época divisava as casas. Seu algoz não havia sido a cerca, e sim a linda fita que amarrada em seu pescoço. Seu padastro o encontrou, pendurado pelo laço e decidiu não nos contar. Hoje me lembro que depois que ele sumiu, tentaram consola-la com outros gatos e até cachorros. Ela mou a todos, mas em nenhum outro a fita vermelha vestiu tão perfeitamente. Seu melhor amigo morrera. Parte dela também.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Os ônibus são mundo à parte. Alguns ligam o celular estrondosamente alto, sempre compartilhando obrigatoriamente conosco seus gostos (muito duvidosos por sinal) musicais, que variam entre funk, swingueira e d'javú. Ou então batem-papo com a pessoa da poltrona ao lado como se estivessem discursando em uma palanque para um público de cem mil pessoas, sem micorfone, mode que é difíci aguentá!! É de dar nos nervos...
Por falar em magnetismo pessoal, estava me perguntando se alguma criatura deste vasto mundo necessita daquelas cantadas de pedreiro e afins para melhorar sua auto-estima. Pelo amor de tudo que é Sagrado, ninguém merece! Se precisarem, sinto em informar que o problema é muito mais profundo e sugiro terapia intensiva.

Magnetismo Pessoal

Já reparei em uma coisa, sempre que estamos lendo um livro aparece alguém pra puxar papo. Tá aí, uma dica para aquelas pessoas introvertidas e tímidas que não conseguem fazer amizade. Basta pegar um bom livro (tem que ser bom para você ter muita vontade de se concentrar na leitura dele), abri-lo em qualquer lugar, enredar-se pela história e pronto! Logo aparece uma nobre alma pra te fazer companhia. Em minhas longas teorias acerca do tema (!) cheguei a conclusão de que isso acontece porque as pessoas ao nos verem lendo, acreditam que só fazemos isso porque estamos nos sentindo muito sozinhos e tristes, então aproximam-se para nos fazerem companhia. O mais engraçado é que quando isso ocorre comigo eu sempre dou respostas monossilábicas e volto a me concentrar no livro. Novamente, meu interlocutor puxa mais conversa. Isso se segue até que eu desista e feche o livro. Aí sim percebo que ficaram satisfeitos, e passam a conversar ainda mais... Enfim, isso é magnetismo pessoal.


domingo, 23 de maio de 2010

TPM

Tensão-Pré-Melancolia. Assim se chama. Nesses dias gostaria de poder colocar uma mochila nas costas e fazer uma viagem. Mas uma viagem a pé, para as montanhas, ou um outro lugar pouco habitado. A vontade de isolamento é gigantesca. O paradoxo é a solidão. Digo paradoxo pois quando alguém deseja isolar-se é justamente porque quer ficar só, então não deveria sentir falta de companhia. Entretanto a falta é de companhia qualificada. Elemento raro. Não quero com isso menosprezar, ou mesmo desprezar pessoas maravilhosas que Deus colocou em minha vida, o chato é ter que tolerar os acessórios que seguem os principais. A irritabilidade desses dias também é imensurável, e isso também contribui para essa vontade de ficar sozinha. Não gosto de ser grossa com gente que eu gosto e que não merece inospitalidades, porém o comportamento é involuntário. Só quem vive pra saber. Mais uma vez, não é vontade de ficar só, é não querer estar perto de quaisquer pessoas... Mas também desejo ficar sozinha, pensando, pensando, pensando, sonhando... SONHANDO. Contraditório? Não, somente eu.

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."


(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Felicidade "Inescrita"



Hoje, dando uma olhadela em velhos textos que eu gosto e arquivo em meu computador, achei uma crônica de Clarice Lispector: FELICIDADE CONTIDA. Essa crônica sempre me faz lembrar, de alguma forma, de uma garotinha que conheci quando era criança. Dos seus seis aos sete anos ela morou em frente a uma biblioteca. Era seu paraíso pessoal. Com destreza sem igual para subir em pés de árvores e cuidar de animais abandonados na rua, encontrava ali, naquele pequenino labirinto de livros, que em nossa tenra idade parecia tão gigantesco, um mundo só seu, perfeito, incrível, e que a fazia acreditar ser o seu habitat natural. Sua rotina de segunda a sexta era a mesma, chegava da escola, almoçava, assistia um de seus programas, que poderia ser, Chaves, Chapolin, ou até mesmo a esquecida Chispita, e saia correndo para a biblioteca.
Achava que tinha pouco tempo, que tinha que devorar aqueles livros o mais vorazmente possível. Nem mesmo ela entendia porque as outras crianças de sua idade não compartilhavam do seu prazer, mas não se importava, aquele espaço era o melhor lugar do mundo! Não fazia distinções, lia de Monteiro Lobato à História do Brasil. Tudo era interessante, até o que seu pequenino cérebro não entendia ainda, palavras que ela sequer escutara algum adulto pronunciar. Indignava-se. Por que a biblioteca não abria aos sábados e domingos? Levar livros para casa não era suficiente, fazia questão daquele cantinho tão seu, que petulantemente que a pertencia! Assim como a personagem de seu filminho preferido, A Bela E A Fera, sonhava morar em uma casa com uma biblioteca gigantesca, daquelas que precisa de uma escada bem grande para alcançar livros tão altos... Se perguntava por que deixar os livros quase inalcançáveis assim... Poderiam ser esquecidos! Mas a idéia de subir em uma longa escada para atingí-los era espetacular... Apesar de sempre introspectiva e tímida, tinha suas amiguinhas. Quando sabia que iriam até sua casa, não ia a biblioteca. Isso a deixava em polvorosa, na expectativa. Ao brincar imaginava-se em um daqueles mundos descritos nos livros... Não tenho certeza do que ela acharia de mim se nos encontrássemos hoje, se seríamos amigas, poderia admirar algumas das minhas características formadas pelo tempo e vivências, e reprovaria totalmente outras. Mas não importa, só me resta a nostalgia, e uma certeza: ela era feliz, muito feliz! E sabia disso.

Vou colocar a crônica aqui, é um pouco longa, mas vale a pena:
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"Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres.

Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.
Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser."
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.
Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante."

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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Retrato de Uma Sociedade Covarde


Passamos por tempos de tolerância catastróficamente inabalável e calma gradativamente irresponsável e indiferente. Hoje passando pela rua, em plena lua escaldante do meio dia vi, à primeira vista um pai agredindo sua filha no meio da rua, tudo muito banal... (!) Entretanto as agressões ficaram mais fortes e percebi, quase tarde demais que não era uma adolescente, e sim uma mulher. Minha mãe parou o carro no meio da rua e corremos até o homem que já havia empurrado a mulher para dentro do seu carro e a enforcava. Isso mesmo, após bater na mulher no meio de uma rua, que se tornou relativamente movimentada após os gritos desesperados, ele estava estrangulando-a na frente de todos, e exceto eu e minha mãe que corremos para cima dele para puxá-lo e se necessário rasgá-lo ao meio, mais ninguém fez nada! Eu vi uma das piores imagens da minha vida. Enquanto ainda batia nas costas dele eu consegui vê-la, aliás, seu olho, um olho sem vida, sem brilho, arrefecido de qualquer calor humano, era um olho morto. Eu e minha mãe começamos a gritar, um assassino estava ali e ninguém se aproximava, ninguém fazia nada! Ele, como se acordasse de um transe, a pegou nos braços e a levou ao hospital, que ficava a uns vinte passos do local. Quase chegando a vítima acordou, passado o estado de deslocamento, ao olhar para ele pulou longe e saiu gritando até que conseguiu se esconder. Eu nervosa como estava, tentava segurar o celular de uma forma que tremesse menos, a ponto de eu poder no mínimo enxergar a tela e digitar os três numerozinhos mágicos. O mais rídiculo é que nem mesmo para ligar para a polícia houve um salvador da pátria. Após a mulher sair gritando e se esconder, parece que só então ele percebeu o que tinha feito. Entrou em seu carro e foi embora. Nem cantando pneu nem nada. Simplesmente entrou e foi-se, sob protestos meus e da minha mãe que implorávamos para alguém segurá-lo, impedí-lo, fechar a rua, qualquer coisa. Mas a reação foi a mais complassiva possível. Ver a submissão popular com os disparates políticos é totalmente prosaico, mas diante de uma cena de tentativa de homicídio é desmoralizante para mim como cidadã. Talvez se fosse a neta de um procurador, a filha de um empresário, ou o irmão de um cantor famoso alguém tivesse feito algo. A indignação somente ocorre para fazer coro a voz daqueles que tem um microfone na garganta, colocado pelo dinheiro, poder e posição social. Se fosse uma riquinha haveria passeata contra a agressão à mulher, mas não, era só mais uma das incontáveis vítimas femininas. Seu grito, acredito que tantas vezes abafado, escondido, esteve naquele dia escancarado, desmascarado, e o que ela mais temia confirmar aconteceu, ali na sua frente, a impunidade. Eu liguei para a polícia, passei a placa do carro, dei todas as descrições possíveis. O desfecho? O de sempre, a mulher amedontrada, faz como uma ostra e se fecha, achando que assim vai esquecer do que aconteceu, ou com a certeza de que as coisas não podem e não vão melhorar, de que qualquer manifestação será inócua. Infelizmente, diferente da ostra, após anos nessa situação inóspita, não haverá uma pérola, e sim um coração ferido, um espírito ulcerado, o mal é inefável. Diante dessa situação, o mais chocante não foram os transeuntes, ou mesmo os espectadores ali, daquela novela deplorável da vida real. Quando eu passei, ainda achando que era um pai e sua filha, notei um garoto, talvez pré-adolescente, daqueles garotos roliços, das bochechas coradas, parecia estar antecipando o lanche que seria da tarde, e ali como quem assiste a um filme no cinema, e comia a sua "pipoca", atento, para não perder nenhuma parte do enredo que se desenvolvia. Aquele garoto representa a geração que está crescendo nessa sociedade individualista. Ele só acordou para a vida real e percebeu que aquilo não era um teatrinho, quando eu gritei para que se levantasse da calçada e chamasse alguém. Uma palavra para tudo isso: deprimente. É, Alice não pode sonhar nessas condições tão macabramente reais...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

"Uma Canção É Para Isso"

' Ontem fui à um show do Skank. Gente os caras são incríveis!!! Dentre tantos sucessos como "Saideira", "Amores Imperfeitos", "Três Lados", "Resposta", "Vou Deixar", "Vamos Fugir" e o mais recente sucesso "Sutilmente", a penúltima e inesquecível música "Ali" foi tocada. Eu, para meu desespero e inconsolável tristeza, cheguei quando o show já tinha começado. Ao ouvi-los fiquei insandecida, um misto de incredulidade de que aquilo era realmente real e de felicidade instantânea, perigosamente avassaladora. Haviam acabado de começar a tocar "Ainda Gosto Dela", e hoje, assim como a música ainda não sei se "vivi ou se sonhei" com tudo aquilo. Fui cavando um buraco até chegar ali, colada naquele alambrado, eu poderia ser espremida, esbofeteada, açoitada, que dali eu não sairia. "Noite bamba, tudo a beça", ver Samuel Rosa, Henrique Portugal, Haroldo Ferreti e Léo Zaneti tão de perto é impagável, melhor que aquilo somente se eu os tivesse conhecido, e eu fugiria com eles, mesmo que não me chamassem. Colada ali naquelas barras de metal eu via os felizardos que desfrutavam de um espacinho VIP, bem próximo ao palco, e que abafaram todas as paletas. Poxa vida! Não basta estarem tão próximos ainda ficaram com todas as paletas? Putz, eu fiquei morrendo de inveja né...
O que importa é que eu estava lá!
Skank transcede as gerações, é sempre atual, há quem diga que eles não são mais os mesmos. Não sei se eles não são mais os mesmos, mas sei de uma coisa, eles são os melhores! "Na confusão do dia-a-dia, no sufoco de uma dúvida, na dor de qualquer coisa"... Toca um Skank!
Na maioria de suas músicas eles cantam sua vida, assim como disse Mário Quintana que a melhor poesia é aquela que lê a gente, e não o contrário, esse é o efeito colateral das músicas dos caras, "derramando no espinhaço quase um mar".
A banda canta a minha vida.
Eu não canto a música deles, é ela que me canta, embala, e me faz imaginar, o que "eu não posso ter", pois pelo menos isso eu posso, e ouvindo Skank, tenho trilha sonora...
É, acho que Alice voltou a sonhar, bom, por pelo menos uma noite...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Metas

Sempre tive mania de escrever, mas tinha muita preguiça de digitar, então escrevia nas folhas dos meus cadernos velhos amiúde. Hoje achei algumas das minhas transcrições... é engraçado olhar algo que a gente escreveu há dois, três, quatro anos... Algumas coisas estão tão diferentes, que nem parece ter sido eu quem escreveu aquelas longas cartas, outras, por outro lado, infelizmente não mudaram. Encontrei também um papelzinho em que eu havia traçado algumas metas para serem alcançadas, tipo estudar regularmente ( a mais difícil de todas! ), não torrar dinheiro à toa ( difícil tbm! ), então, acho que vou parar por aqui para passar menos vergonha. Enfim, ao todo eram umas dez ou doze metas, pouquíssimas eu consegui cumprir. Será por causa da minha instabilidade? Ou será que foi pela falta de prazo estabelecida? Afinal, toda meta que se preze tem que ter um prazo a ser cumprido. Por isso agora estabeleci outras, cinco, porque eu acho que aquela grande quantidade de objetivos me deixou sobrecarregada... Tudo isso me lembrou agora de um poema _ dentre os vários _ que eu gosto muito do Fernando "A" Pessoa, este assinado por um de seus vários pseudônimos, qual seja Álvaro de Campos:


Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...

Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos


*Suspiro final.

Bad.. Bad...

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Falácias...

Deve haver uns vinte, exagerei, mas dez sim, no mínimo, minutos que estou olhando para a tela e para essa barrinha do cursor piscante, outrora tão convidativa. Ter um blog, era algo que sempre quis em minha adolescência, e nessa época teria mais inspiração e criatividade para escrever nessas linhas agora muitas vezes tediosas. Então me pergunto, a inspiração acabou? A preguiça tomou conta do meu intelecto? A criatividade foi comprar cigarros e ainda não voltou? Difícil... Hoje é um daqueles feriados tediosos em que até mesmo dormir, um dos meus exercícios favoritos, é uma chata opção. Por quê queremos tantos feriados e no dia destes reclamamos que é tão chato quanto o domingo? Ir pra rua, ver "a mesma praça, os mesmos bancos"... Não to com saco pra social hoje... Sei que não vou conhecer ninguém diferente, e que meu príncipe do cavalo branco não estará lá, e que o papo será o mesmo de "essa-rua-está-chata-vou-embora-pra-minha-casa", mudei um pouco o roteiro, já estou em casa, e assim não me dou ao trabalho de ir até lá pra querer voltar. Então, é assim que vim parar aqui, escrevendo neste Blog, obrigada pela tolerância :)... É, Alice Não Sonha Mais...

terça-feira, 20 de abril de 2010

Crônica da Ingenuidade

Uma senhora, passando tranquilamente em frente a padaria de seu bairro é brusacemente puxada para dentro desta.
Dentro do estabelecimento vê sua velha conhecida, e dona da padaria deitada no chão. Outra pergunta também não me ocorreria, e a velha logo soltou:
__ Uai Dona Fulana, está tão quente assim que a senhora deitou no chão pra refrescar...
__ É está sim... _ respondeu a segunda velhota meio cabisbaixa.
Olhando para as duas funcionárias que também se encontravam tomando uma fresca no chão da padaria a velha lhes fez a mesma pergunta. Bom, mas aí elas já não tiveram tempo de responder pois um dos assaltantes veio até a senhorinha e apontando uma arma pra sua cabeça a fizeram descansar do calor no chão da padaria.
Imagino o quanto esses ladrões não riram dessa situação.
PS.: Por mais incrível que pareça, foi um caso verídico.

Cotas Para Que Te Quero...

Uma coisa que eu acho realmente interessante é o alarde que ainda é feito contrário a disponibilização de cotas para os negros. Não vou entrar no mérito dessa questão hoje, apenas não entendo o porquê de toda essa indignação. As cotas para deficientes já são usadas há um tempo e os mesmos argumentos usados para combater a cota racial seriam cabíveis para contestar aquela, entretanto eu pergunto, por quê ninguém se manifesta (não sei como colocar interrogação nesse computador... :S rs). Quero dizer, um cadeirante é desprovido intelectualmente a ponto de terem que separar vagas para ele ocupar vaga em um concurso no qual foi aplicada a mesma prova, no mesmo nível para todos... Realmente não entendo isso, mais ainda não entendo porquê ninguém se manifesta acerca disso, até nisso o pobre do preto sofre. Qualquer benefício se disponibilizado a ele é inaceitável, ridículo, etc. Não quero contestar a validade ou não do benefício, somente quero ressaltar que quando a coisa é em torno dos negros a discussão sempre se acalenta. Do jeito que as coisas andam vão criar cotas para gays também e a maioria não exprimirá opinião a respeito, não haverão passeatas, RT's no twitter, ou qualquer outra forma de manifestação, e assim as coisas vão para frente, com pés de curupira...

Se dinheiro fosse a solução dos problemas Eike Batista não teria levado chifre...