Tensão-Pré-Melancolia. Assim se chama. Nesses dias gostaria de poder colocar uma mochila nas costas e fazer uma viagem. Mas uma viagem a pé, para as montanhas, ou um outro lugar pouco habitado. A vontade de isolamento é gigantesca. O paradoxo é a solidão. Digo paradoxo pois quando alguém deseja isolar-se é justamente porque quer ficar só, então não deveria sentir falta de companhia. Entretanto a falta é de companhia qualificada. Elemento raro. Não quero com isso menosprezar, ou mesmo desprezar pessoas maravilhosas que Deus colocou em minha vida, o chato é ter que tolerar os acessórios que seguem os principais. A irritabilidade desses dias também é imensurável, e isso também contribui para essa vontade de ficar sozinha. Não gosto de ser grossa com gente que eu gosto e que não merece inospitalidades, porém o comportamento é involuntário. Só quem vive pra saber. Mais uma vez, não é vontade de ficar só, é não querer estar perto de quaisquer pessoas... Mas também desejo ficar sozinha, pensando, pensando, pensando, sonhando... SONHANDO. Contraditório? Não, somente eu.
Não sei quem sou, que alma tenho.Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."
(Fernando Pessoa)
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