sábado, 28 de outubro de 2017

Sapatos e Calos

Mais um dia que você sai cedo de casa e chega quase onze da noite. Bom, já devia ter se acostumado, é algo habitual, fora que sabe que haverão dias ainda mais longos, dias que durarão 29, 32, 48 horas... Caminhando, olha para baixo e o sapato branco está em gradiente de cores que começa no marrom escuro. A calça, que deveria ser branca, não faz vergonha a nenhum comercial de sabão em pó (a parte do antes). Os calos, que de tão grossos já não deveriam mais doer, insistem em latejar, te lembrando que aquele sapato não é tão confortável _ apesar de ser bonitinho e ainda aquela ardência de que novos estão surgindo, eu diria brotando, mesmo você achando que já não tinha mais espaço pra tanto. Coisas da idade e do cansaço: se importar mais com sapatos confortáveis. Chega em casa e uma coisa te chama antes da cama e da fome: um bom banho. Tira a roupa e percebe que o encardido era pior do que parecia, a roupa quase era uma segunda pele, parecia ter um mês de uso ininterrupto. A meia, dá vontade de jogar no lixo, não fosse o fato de você não poder comprar pares de meia diários. Mas a coisa realmente não são as roupas, os calos, a fome, o cansaço... É aquela pergunta que sempre vem: "o que tô fazendo aqui?"
Longe de casa, num lugar sem nenhum sentimento de pertencença. Vontade de largar tudo e correr chorando, voltar. Mas até isso é difícil, já que pensa que não tem nenhum lugar pra onde realmente voltar. Não dá. Não deu, por isso você partiu. Você não pertence a este lugar, mas tampouco pode voltar sem ter cumprido o que se propôs. A ruptura aconteceu. 
É recorrente o sentimento, as dúvidas, inquietudes.
E você no fim se conforma. É assim, outros dias como esse virão e você estará de novo preparada para seguir em frente.