domingo, 15 de agosto de 2010

Uma Madrugada Qualquer

Por que temos essa mania de adiar as coisas, achando que tudo pode ser deixado para depois, para daqui a pouco... Essas atitudes dão a vida um cunho de infinidade, de intérmino contínuo. O mais intrigante é que nos colocamos em permanente estado de contestação quanto à longevidade dos nossos dias, reclamam o quanto a vida é curta. Poxa, se nossos dias são assim tão fugazes _ e realmente são_, se um dia com 24 horas é curto demais para fazermos tudo, que razão há para retardarmos decisões e atitudes? Medo, acomodação, falta de atitude... Se todos repetem a máxima de vivermos cada dia como se fosse o último, o fim de nossas vidas então é indubitavelmente inacabado. Qual o motivo de terminarmos com reticências ou interrogação uma efêmera existência, quando a poderiamos pontuar com exclamações ou mesmo o tão polêmico ponto final. Assim sendo, comprovando a continuidade e uma possível tomada de comportamento, assasino a língua portuguesa e pontuo o fim deste com uma vírgula, ponto e vírgula não pois é mais demorado, mas uma vírgula, uma pequena pausa, seguidada da continuidade que se deve dar,

O Menino Que Carregava Água Na Peneira

(Manoel de Barros)



Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.


O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.