Lembro-me de uma vizinha que eu tive. Tinha os cabelos enormes, negros, emaranhavam-se sobre o seu rosto e isso a tornava estremamente misteriosa ao olhar os demais por entre a longa franja que cobria seu rosto. Adorava brincar na rua, traquinagens que hoje em dia as crianças houvem falar como lendas de um passado longíquo. Jogavamos pião, bola, amarelinha, bandeirola, pedras uns nos outros (falando soa pesado, mas era divertido e ninguém se machucava), desligávamos relógios, tocávamos campainha, acho melhor parar por aqui.
Um dia aquela menina ganhou um presente que a deixou radiante. Seu sorriso era tão largo que nem mesmo so longos e emaranhados cabelos conseguiam escondê-lo. Seu padastro havia lhe dado uma gatinha, toda branquinha, era muito linda! Parecia um algodãozinho. O nome: Xuxa. Devo concordar que não é um nome bem original, mas encaixava tão bem. Logo sua dona arranjou uma fita vermelha de cetim para amarrar em seu pescoço. A fita era de um escarlate extremamente encarnado, ainda mais vivo quando envolto naquele pescocinho branco. Logo veio a surpresa. A linda gata, na verdade era um gato. Sua dona ficou desolada. Um macho, com aquele nome feminino não pegava bem. Até tentou outros nomes, mas o bichano não atendia a nenhum... Sua mãe logo a consolou, disse que havia um exímio nadador, famoso inclusive, que tinha o apelido de Xuxa, o que tornava, portanto, o nome unissex. Ufa! Que alívio! O problema agora era a fita. Resolveu então que não era mais um laço, e sim uma gravata borboleta. Uma linda gravata borboleta vermelha em um elegantíssimo gato branco. Perfeitos! Os dois se divertiam muito. Há quem diga que gatos são chatos, quem bons mesmo são os cães. Quem diz isso é porque não teve a oportunidade de vê-los. Ele era seu companheiro. Ela não ia nem mesmo a padaria sem o felino. Banhava-o quase todos os dias, e para que se secasse rápido o colocava atrás da geladeira. Ele então, tremendo, deitava-se entre a grade e a parede para se aquecer. Acordava-a todas as manhãs e brincavam sempre. Xuxa era querido por quase todos. Havia um garoto que uma vez cortara seus bigodes. Tramamos planos mirabolantes de vingança. Um dia Xuxa desapareceu. Como brisa leve, o gato havia ido ninguém sabia para onde. A menina não podia acreditar. Ele não a abandonaria. Ela dava de tudo para ele, melhores rações, perfumes, era um gato feliz! Foram várias semanas de intensa busca e desespero. Nesses dias as manhãs na escola, antes tão divertidas, eram longas e massantes, ficávamos ansiosas para procurar por Xuxa. As tardes eram curtas e angustiantes. Rodamos por todos os cantos. O gato tinha desaparecido. Muita tristeza, choro, e finalmente o conformismo. Ele havia achado outar casa. Treze anos após o ocorrido soubemos a verdade. Andante, como todos os gatos, ele havia se enroscado em uma cerca de arame farpado que na época divisava as casas. Seu algoz não havia sido a cerca, e sim a linda fita que amarrada em seu pescoço. Seu padastro o encontrou, pendurado pelo laço e decidiu não nos contar. Hoje me lembro que depois que ele sumiu, tentaram consola-la com outros gatos e até cachorros. Ela mou a todos, mas em nenhum outro a fita vermelha vestiu tão perfeitamente. Seu melhor amigo morrera. Parte dela também.
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