quinta-feira, 22 de abril de 2010

Metas

Sempre tive mania de escrever, mas tinha muita preguiça de digitar, então escrevia nas folhas dos meus cadernos velhos amiúde. Hoje achei algumas das minhas transcrições... é engraçado olhar algo que a gente escreveu há dois, três, quatro anos... Algumas coisas estão tão diferentes, que nem parece ter sido eu quem escreveu aquelas longas cartas, outras, por outro lado, infelizmente não mudaram. Encontrei também um papelzinho em que eu havia traçado algumas metas para serem alcançadas, tipo estudar regularmente ( a mais difícil de todas! ), não torrar dinheiro à toa ( difícil tbm! ), então, acho que vou parar por aqui para passar menos vergonha. Enfim, ao todo eram umas dez ou doze metas, pouquíssimas eu consegui cumprir. Será por causa da minha instabilidade? Ou será que foi pela falta de prazo estabelecida? Afinal, toda meta que se preze tem que ter um prazo a ser cumprido. Por isso agora estabeleci outras, cinco, porque eu acho que aquela grande quantidade de objetivos me deixou sobrecarregada... Tudo isso me lembrou agora de um poema _ dentre os vários _ que eu gosto muito do Fernando "A" Pessoa, este assinado por um de seus vários pseudônimos, qual seja Álvaro de Campos:


Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...

Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos


*Suspiro final.

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