terça-feira, 25 de maio de 2010

O Conto da Fita Vermelha

Lembro-me de uma vizinha que eu tive. Tinha os cabelos enormes, negros, emaranhavam-se sobre o seu rosto e isso a tornava estremamente misteriosa ao olhar os demais por entre a longa franja que cobria seu rosto. Adorava brincar na rua, traquinagens que hoje em dia as crianças houvem falar como lendas de um passado longíquo. Jogavamos pião, bola, amarelinha, bandeirola, pedras uns nos outros (falando soa pesado, mas era divertido e ninguém se machucava), desligávamos relógios, tocávamos campainha, acho melhor parar por aqui.
Um dia aquela menina ganhou um presente que a deixou radiante. Seu sorriso era tão largo que nem mesmo so longos e emaranhados cabelos conseguiam escondê-lo. Seu padastro havia lhe dado uma gatinha, toda branquinha, era muito linda! Parecia um algodãozinho. O nome: Xuxa. Devo concordar que não é um nome bem original, mas encaixava tão bem. Logo sua dona arranjou uma fita vermelha de cetim para amarrar em seu pescoço. A fita era de um escarlate extremamente encarnado, ainda mais vivo quando envolto naquele pescocinho branco. Logo veio a surpresa. A linda gata, na verdade era um gato. Sua dona ficou desolada. Um macho, com aquele nome feminino não pegava bem. Até tentou outros nomes, mas o bichano não atendia a nenhum... Sua mãe logo a consolou, disse que havia um exímio nadador, famoso inclusive, que tinha o apelido de Xuxa, o que tornava, portanto, o nome unissex. Ufa! Que alívio! O problema agora era a fita. Resolveu então que não era mais um laço, e sim uma gravata borboleta. Uma linda gravata borboleta vermelha em um elegantíssimo gato branco. Perfeitos! Os dois se divertiam muito. Há quem diga que gatos são chatos, quem bons mesmo são os cães. Quem diz isso é porque não teve a oportunidade de vê-los. Ele era seu companheiro. Ela não ia nem mesmo a padaria sem o felino. Banhava-o quase todos os dias, e para que se secasse rápido o colocava atrás da geladeira. Ele então, tremendo, deitava-se entre a grade e a parede para se aquecer. Acordava-a todas as manhãs e brincavam sempre. Xuxa era querido por quase todos. Havia um garoto que uma vez cortara seus bigodes. Tramamos planos mirabolantes de vingança. Um dia Xuxa desapareceu. Como brisa leve, o gato havia ido ninguém sabia para onde. A menina não podia acreditar. Ele não a abandonaria. Ela dava de tudo para ele, melhores rações, perfumes, era um gato feliz! Foram várias semanas de intensa busca e desespero. Nesses dias as manhãs na escola, antes tão divertidas, eram longas e massantes, ficávamos ansiosas para procurar por Xuxa. As tardes eram curtas e angustiantes. Rodamos por todos os cantos. O gato tinha desaparecido. Muita tristeza, choro, e finalmente o conformismo. Ele havia achado outar casa. Treze anos após o ocorrido soubemos a verdade. Andante, como todos os gatos, ele havia se enroscado em uma cerca de arame farpado que na época divisava as casas. Seu algoz não havia sido a cerca, e sim a linda fita que amarrada em seu pescoço. Seu padastro o encontrou, pendurado pelo laço e decidiu não nos contar. Hoje me lembro que depois que ele sumiu, tentaram consola-la com outros gatos e até cachorros. Ela mou a todos, mas em nenhum outro a fita vermelha vestiu tão perfeitamente. Seu melhor amigo morrera. Parte dela também.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Os ônibus são mundo à parte. Alguns ligam o celular estrondosamente alto, sempre compartilhando obrigatoriamente conosco seus gostos (muito duvidosos por sinal) musicais, que variam entre funk, swingueira e d'javú. Ou então batem-papo com a pessoa da poltrona ao lado como se estivessem discursando em uma palanque para um público de cem mil pessoas, sem micorfone, mode que é difíci aguentá!! É de dar nos nervos...
Por falar em magnetismo pessoal, estava me perguntando se alguma criatura deste vasto mundo necessita daquelas cantadas de pedreiro e afins para melhorar sua auto-estima. Pelo amor de tudo que é Sagrado, ninguém merece! Se precisarem, sinto em informar que o problema é muito mais profundo e sugiro terapia intensiva.

Magnetismo Pessoal

Já reparei em uma coisa, sempre que estamos lendo um livro aparece alguém pra puxar papo. Tá aí, uma dica para aquelas pessoas introvertidas e tímidas que não conseguem fazer amizade. Basta pegar um bom livro (tem que ser bom para você ter muita vontade de se concentrar na leitura dele), abri-lo em qualquer lugar, enredar-se pela história e pronto! Logo aparece uma nobre alma pra te fazer companhia. Em minhas longas teorias acerca do tema (!) cheguei a conclusão de que isso acontece porque as pessoas ao nos verem lendo, acreditam que só fazemos isso porque estamos nos sentindo muito sozinhos e tristes, então aproximam-se para nos fazerem companhia. O mais engraçado é que quando isso ocorre comigo eu sempre dou respostas monossilábicas e volto a me concentrar no livro. Novamente, meu interlocutor puxa mais conversa. Isso se segue até que eu desista e feche o livro. Aí sim percebo que ficaram satisfeitos, e passam a conversar ainda mais... Enfim, isso é magnetismo pessoal.


domingo, 23 de maio de 2010

TPM

Tensão-Pré-Melancolia. Assim se chama. Nesses dias gostaria de poder colocar uma mochila nas costas e fazer uma viagem. Mas uma viagem a pé, para as montanhas, ou um outro lugar pouco habitado. A vontade de isolamento é gigantesca. O paradoxo é a solidão. Digo paradoxo pois quando alguém deseja isolar-se é justamente porque quer ficar só, então não deveria sentir falta de companhia. Entretanto a falta é de companhia qualificada. Elemento raro. Não quero com isso menosprezar, ou mesmo desprezar pessoas maravilhosas que Deus colocou em minha vida, o chato é ter que tolerar os acessórios que seguem os principais. A irritabilidade desses dias também é imensurável, e isso também contribui para essa vontade de ficar sozinha. Não gosto de ser grossa com gente que eu gosto e que não merece inospitalidades, porém o comportamento é involuntário. Só quem vive pra saber. Mais uma vez, não é vontade de ficar só, é não querer estar perto de quaisquer pessoas... Mas também desejo ficar sozinha, pensando, pensando, pensando, sonhando... SONHANDO. Contraditório? Não, somente eu.

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."


(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Felicidade "Inescrita"



Hoje, dando uma olhadela em velhos textos que eu gosto e arquivo em meu computador, achei uma crônica de Clarice Lispector: FELICIDADE CONTIDA. Essa crônica sempre me faz lembrar, de alguma forma, de uma garotinha que conheci quando era criança. Dos seus seis aos sete anos ela morou em frente a uma biblioteca. Era seu paraíso pessoal. Com destreza sem igual para subir em pés de árvores e cuidar de animais abandonados na rua, encontrava ali, naquele pequenino labirinto de livros, que em nossa tenra idade parecia tão gigantesco, um mundo só seu, perfeito, incrível, e que a fazia acreditar ser o seu habitat natural. Sua rotina de segunda a sexta era a mesma, chegava da escola, almoçava, assistia um de seus programas, que poderia ser, Chaves, Chapolin, ou até mesmo a esquecida Chispita, e saia correndo para a biblioteca.
Achava que tinha pouco tempo, que tinha que devorar aqueles livros o mais vorazmente possível. Nem mesmo ela entendia porque as outras crianças de sua idade não compartilhavam do seu prazer, mas não se importava, aquele espaço era o melhor lugar do mundo! Não fazia distinções, lia de Monteiro Lobato à História do Brasil. Tudo era interessante, até o que seu pequenino cérebro não entendia ainda, palavras que ela sequer escutara algum adulto pronunciar. Indignava-se. Por que a biblioteca não abria aos sábados e domingos? Levar livros para casa não era suficiente, fazia questão daquele cantinho tão seu, que petulantemente que a pertencia! Assim como a personagem de seu filminho preferido, A Bela E A Fera, sonhava morar em uma casa com uma biblioteca gigantesca, daquelas que precisa de uma escada bem grande para alcançar livros tão altos... Se perguntava por que deixar os livros quase inalcançáveis assim... Poderiam ser esquecidos! Mas a idéia de subir em uma longa escada para atingí-los era espetacular... Apesar de sempre introspectiva e tímida, tinha suas amiguinhas. Quando sabia que iriam até sua casa, não ia a biblioteca. Isso a deixava em polvorosa, na expectativa. Ao brincar imaginava-se em um daqueles mundos descritos nos livros... Não tenho certeza do que ela acharia de mim se nos encontrássemos hoje, se seríamos amigas, poderia admirar algumas das minhas características formadas pelo tempo e vivências, e reprovaria totalmente outras. Mas não importa, só me resta a nostalgia, e uma certeza: ela era feliz, muito feliz! E sabia disso.

Vou colocar a crônica aqui, é um pouco longa, mas vale a pena:
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"Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres.

Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.
Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser."
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.
Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante."

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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Retrato de Uma Sociedade Covarde


Passamos por tempos de tolerância catastróficamente inabalável e calma gradativamente irresponsável e indiferente. Hoje passando pela rua, em plena lua escaldante do meio dia vi, à primeira vista um pai agredindo sua filha no meio da rua, tudo muito banal... (!) Entretanto as agressões ficaram mais fortes e percebi, quase tarde demais que não era uma adolescente, e sim uma mulher. Minha mãe parou o carro no meio da rua e corremos até o homem que já havia empurrado a mulher para dentro do seu carro e a enforcava. Isso mesmo, após bater na mulher no meio de uma rua, que se tornou relativamente movimentada após os gritos desesperados, ele estava estrangulando-a na frente de todos, e exceto eu e minha mãe que corremos para cima dele para puxá-lo e se necessário rasgá-lo ao meio, mais ninguém fez nada! Eu vi uma das piores imagens da minha vida. Enquanto ainda batia nas costas dele eu consegui vê-la, aliás, seu olho, um olho sem vida, sem brilho, arrefecido de qualquer calor humano, era um olho morto. Eu e minha mãe começamos a gritar, um assassino estava ali e ninguém se aproximava, ninguém fazia nada! Ele, como se acordasse de um transe, a pegou nos braços e a levou ao hospital, que ficava a uns vinte passos do local. Quase chegando a vítima acordou, passado o estado de deslocamento, ao olhar para ele pulou longe e saiu gritando até que conseguiu se esconder. Eu nervosa como estava, tentava segurar o celular de uma forma que tremesse menos, a ponto de eu poder no mínimo enxergar a tela e digitar os três numerozinhos mágicos. O mais rídiculo é que nem mesmo para ligar para a polícia houve um salvador da pátria. Após a mulher sair gritando e se esconder, parece que só então ele percebeu o que tinha feito. Entrou em seu carro e foi embora. Nem cantando pneu nem nada. Simplesmente entrou e foi-se, sob protestos meus e da minha mãe que implorávamos para alguém segurá-lo, impedí-lo, fechar a rua, qualquer coisa. Mas a reação foi a mais complassiva possível. Ver a submissão popular com os disparates políticos é totalmente prosaico, mas diante de uma cena de tentativa de homicídio é desmoralizante para mim como cidadã. Talvez se fosse a neta de um procurador, a filha de um empresário, ou o irmão de um cantor famoso alguém tivesse feito algo. A indignação somente ocorre para fazer coro a voz daqueles que tem um microfone na garganta, colocado pelo dinheiro, poder e posição social. Se fosse uma riquinha haveria passeata contra a agressão à mulher, mas não, era só mais uma das incontáveis vítimas femininas. Seu grito, acredito que tantas vezes abafado, escondido, esteve naquele dia escancarado, desmascarado, e o que ela mais temia confirmar aconteceu, ali na sua frente, a impunidade. Eu liguei para a polícia, passei a placa do carro, dei todas as descrições possíveis. O desfecho? O de sempre, a mulher amedontrada, faz como uma ostra e se fecha, achando que assim vai esquecer do que aconteceu, ou com a certeza de que as coisas não podem e não vão melhorar, de que qualquer manifestação será inócua. Infelizmente, diferente da ostra, após anos nessa situação inóspita, não haverá uma pérola, e sim um coração ferido, um espírito ulcerado, o mal é inefável. Diante dessa situação, o mais chocante não foram os transeuntes, ou mesmo os espectadores ali, daquela novela deplorável da vida real. Quando eu passei, ainda achando que era um pai e sua filha, notei um garoto, talvez pré-adolescente, daqueles garotos roliços, das bochechas coradas, parecia estar antecipando o lanche que seria da tarde, e ali como quem assiste a um filme no cinema, e comia a sua "pipoca", atento, para não perder nenhuma parte do enredo que se desenvolvia. Aquele garoto representa a geração que está crescendo nessa sociedade individualista. Ele só acordou para a vida real e percebeu que aquilo não era um teatrinho, quando eu gritei para que se levantasse da calçada e chamasse alguém. Uma palavra para tudo isso: deprimente. É, Alice não pode sonhar nessas condições tão macabramente reais...