quinta-feira, 13 de maio de 2010

Retrato de Uma Sociedade Covarde


Passamos por tempos de tolerância catastróficamente inabalável e calma gradativamente irresponsável e indiferente. Hoje passando pela rua, em plena lua escaldante do meio dia vi, à primeira vista um pai agredindo sua filha no meio da rua, tudo muito banal... (!) Entretanto as agressões ficaram mais fortes e percebi, quase tarde demais que não era uma adolescente, e sim uma mulher. Minha mãe parou o carro no meio da rua e corremos até o homem que já havia empurrado a mulher para dentro do seu carro e a enforcava. Isso mesmo, após bater na mulher no meio de uma rua, que se tornou relativamente movimentada após os gritos desesperados, ele estava estrangulando-a na frente de todos, e exceto eu e minha mãe que corremos para cima dele para puxá-lo e se necessário rasgá-lo ao meio, mais ninguém fez nada! Eu vi uma das piores imagens da minha vida. Enquanto ainda batia nas costas dele eu consegui vê-la, aliás, seu olho, um olho sem vida, sem brilho, arrefecido de qualquer calor humano, era um olho morto. Eu e minha mãe começamos a gritar, um assassino estava ali e ninguém se aproximava, ninguém fazia nada! Ele, como se acordasse de um transe, a pegou nos braços e a levou ao hospital, que ficava a uns vinte passos do local. Quase chegando a vítima acordou, passado o estado de deslocamento, ao olhar para ele pulou longe e saiu gritando até que conseguiu se esconder. Eu nervosa como estava, tentava segurar o celular de uma forma que tremesse menos, a ponto de eu poder no mínimo enxergar a tela e digitar os três numerozinhos mágicos. O mais rídiculo é que nem mesmo para ligar para a polícia houve um salvador da pátria. Após a mulher sair gritando e se esconder, parece que só então ele percebeu o que tinha feito. Entrou em seu carro e foi embora. Nem cantando pneu nem nada. Simplesmente entrou e foi-se, sob protestos meus e da minha mãe que implorávamos para alguém segurá-lo, impedí-lo, fechar a rua, qualquer coisa. Mas a reação foi a mais complassiva possível. Ver a submissão popular com os disparates políticos é totalmente prosaico, mas diante de uma cena de tentativa de homicídio é desmoralizante para mim como cidadã. Talvez se fosse a neta de um procurador, a filha de um empresário, ou o irmão de um cantor famoso alguém tivesse feito algo. A indignação somente ocorre para fazer coro a voz daqueles que tem um microfone na garganta, colocado pelo dinheiro, poder e posição social. Se fosse uma riquinha haveria passeata contra a agressão à mulher, mas não, era só mais uma das incontáveis vítimas femininas. Seu grito, acredito que tantas vezes abafado, escondido, esteve naquele dia escancarado, desmascarado, e o que ela mais temia confirmar aconteceu, ali na sua frente, a impunidade. Eu liguei para a polícia, passei a placa do carro, dei todas as descrições possíveis. O desfecho? O de sempre, a mulher amedontrada, faz como uma ostra e se fecha, achando que assim vai esquecer do que aconteceu, ou com a certeza de que as coisas não podem e não vão melhorar, de que qualquer manifestação será inócua. Infelizmente, diferente da ostra, após anos nessa situação inóspita, não haverá uma pérola, e sim um coração ferido, um espírito ulcerado, o mal é inefável. Diante dessa situação, o mais chocante não foram os transeuntes, ou mesmo os espectadores ali, daquela novela deplorável da vida real. Quando eu passei, ainda achando que era um pai e sua filha, notei um garoto, talvez pré-adolescente, daqueles garotos roliços, das bochechas coradas, parecia estar antecipando o lanche que seria da tarde, e ali como quem assiste a um filme no cinema, e comia a sua "pipoca", atento, para não perder nenhuma parte do enredo que se desenvolvia. Aquele garoto representa a geração que está crescendo nessa sociedade individualista. Ele só acordou para a vida real e percebeu que aquilo não era um teatrinho, quando eu gritei para que se levantasse da calçada e chamasse alguém. Uma palavra para tudo isso: deprimente. É, Alice não pode sonhar nessas condições tão macabramente reais...

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