Carlos Drummond Andrade
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.

Que discussão de royalties que nada! O negócio é pagodear! E foi assim a política do pão e circo na Praça dos Namorados, a discussão que levou (pelo menos deveria) as pessoas às ruas, foi animada ao som de muita música. Se precisam colocar artistas do cenário nacional para movimentar meia dúzia de cidadãos a irem discutir e defender seus interesses o problema é realmente sério. Existiam exceções ali realmente engajados no tema? Logicamente, mas o problema é esse, eram exceções, ou seja, a minoria para desespero de um futuro. Os funcionários públicos, dispensados de suas funções para comparecerem e fazerem coro à defesa dos Royalties do Petróleo do Espírito Santo aproveitaram a folga para ir a praia, ao shopping, ao supermercado... Como falar em consciência política diante dessa situação? Como defender uma reforma política, revendo a obrigatoriedade do voto? Esses mesmos que não foram defender seus interesses nas ruas capixabas, iriam até as urnas ou aproveitariam o domingo de sol para um bom descanso? Sim, a pergunta é retórica. Ao contrário da serpente que incitou Eva a provar do fruto da árvore que proporcionava o conhecimento do bem e do mal e todas as coisas, nossos políticos, serpentes contemporâneas, escondem o "fruto do conhecimento" da grande massa, quando não investem em educação, maquiam números e pesquisas e desviam o foco para outras questões importantes como futebol. E é assim, excluindo o povo do seleto grupo de formadores de opinião que eles se mantém no poder sob aplausos débeis de pessoas carentes de intelecto e entupidas de bolsas-auxílio. Isso, evidente, sem contar a felicidade dos cada vez mais milionários aliados aos salafrários do Poder Legislativo. Voto facultativo só aumentará o comércio por tal e a grande maioria daqueles que poderiam tentar fazer alguma diferença aproveitarão o dia - que será livre - para não enfrentar fila e passar vendo Faustão, Gugu ou qualquer outro programeco alienador. Aqueles que consideram bobeira ir às ruas defender um direito da nossa terra, também acredita, bitolados pela ideologia do Estado, que as coisas não podem mudar, pois são seres humanos que estão no poder. Eu me pergunto só uma coisa, essas mesmas pessoas que não lutam pela defesa de seus interesses e declaram que a corrupção é assim porque é assim, não são honestas, ou não conhecem um só ser que o seja? Eu acredito que existe muita gente boa, querendo fazer o bem, mas acomodados não vão mudar essa história.