sexta-feira, 14 de maio de 2010

Felicidade "Inescrita"



Hoje, dando uma olhadela em velhos textos que eu gosto e arquivo em meu computador, achei uma crônica de Clarice Lispector: FELICIDADE CONTIDA. Essa crônica sempre me faz lembrar, de alguma forma, de uma garotinha que conheci quando era criança. Dos seus seis aos sete anos ela morou em frente a uma biblioteca. Era seu paraíso pessoal. Com destreza sem igual para subir em pés de árvores e cuidar de animais abandonados na rua, encontrava ali, naquele pequenino labirinto de livros, que em nossa tenra idade parecia tão gigantesco, um mundo só seu, perfeito, incrível, e que a fazia acreditar ser o seu habitat natural. Sua rotina de segunda a sexta era a mesma, chegava da escola, almoçava, assistia um de seus programas, que poderia ser, Chaves, Chapolin, ou até mesmo a esquecida Chispita, e saia correndo para a biblioteca.
Achava que tinha pouco tempo, que tinha que devorar aqueles livros o mais vorazmente possível. Nem mesmo ela entendia porque as outras crianças de sua idade não compartilhavam do seu prazer, mas não se importava, aquele espaço era o melhor lugar do mundo! Não fazia distinções, lia de Monteiro Lobato à História do Brasil. Tudo era interessante, até o que seu pequenino cérebro não entendia ainda, palavras que ela sequer escutara algum adulto pronunciar. Indignava-se. Por que a biblioteca não abria aos sábados e domingos? Levar livros para casa não era suficiente, fazia questão daquele cantinho tão seu, que petulantemente que a pertencia! Assim como a personagem de seu filminho preferido, A Bela E A Fera, sonhava morar em uma casa com uma biblioteca gigantesca, daquelas que precisa de uma escada bem grande para alcançar livros tão altos... Se perguntava por que deixar os livros quase inalcançáveis assim... Poderiam ser esquecidos! Mas a idéia de subir em uma longa escada para atingí-los era espetacular... Apesar de sempre introspectiva e tímida, tinha suas amiguinhas. Quando sabia que iriam até sua casa, não ia a biblioteca. Isso a deixava em polvorosa, na expectativa. Ao brincar imaginava-se em um daqueles mundos descritos nos livros... Não tenho certeza do que ela acharia de mim se nos encontrássemos hoje, se seríamos amigas, poderia admirar algumas das minhas características formadas pelo tempo e vivências, e reprovaria totalmente outras. Mas não importa, só me resta a nostalgia, e uma certeza: ela era feliz, muito feliz! E sabia disso.

Vou colocar a crônica aqui, é um pouco longa, mas vale a pena:
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"Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres.

Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.
Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser."
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.
Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante."

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2 comentários:

tj disse...

gostei do blog!
Parabéns!vou fazer umas visitas por aqui de vez em quando.

Margarida disse...

Obrigada! =D Volte sempre!